Avançado(Avançado)

Em um artigo anterior falamos do ticun de um modo básico. Neste artigo entenderemos mais profundamente o conceito e sua origem.

Segundo a Cabalá, o propósito da Criação é promover o ticun, e isso pode (e deve) ser feito em dois níveis: global e pessoal.

Ticun global
Isaac Luria ensina que antes que o mundo como nós o conhecemos existisse, houve alguns estágios de desenvolvimento que não puderam se manter (por serem desarmônicos e “instáveis”). Esses mundos que não puderam se manter se “estilhaçaram”, num evento que a Cabalá chama de “Quebra dos Vasos”. É dos fragmentos desses mundos estilhaçados e, portanto, como consequência da Quebra dos Vasos, que surgiu o nosso mundo.

Sendo assim, o nosso Universo pode ser entendido como um enorme vaso quebrado, o que significa dizer que ele é (ou está) multi-fragmentado, como se fossem milhares de caquinhos de um vaso que se quebrou.

É daí que surge a ideia do papel do ser humano – promover o reparo (ou ticun) desse vaso, juntando novamente os caquinhos.

Nesse sentido, o primeiro chamado humano, segundo a Cabalá, é para reparar o mundo em que vivemos, transformando-o num lugar melhor para se viver.

Esse reparo do mundo é geralmente chamado de ticun olám (תיקון עולם, lit. “retificação do mundo”) e pode ser definido, de maneira simplista, como uma necessidade de atuar de modo construtivo e reparador.

O conceito de ticun olám nos leva a entender que todos nós, enquanto seres humanos, temos uma responsabilidade não apenas com o nosso bem-estar, mas também com o bem-estar da sociedade e do mundo em geral e como um todo. Assim, pode-se dizer que todo ato que alivia o sofrimento ou melhora o mundo ou a vida de outro(s) ser(es)-humano(s) é um ato de ticun olám.

Ticun pessoal
Como nós também somos parte do mundo, e surgimos por meio da mesma fragmentação provocada pela “Quebra dos Vasos”, decorre que nós também somos seres multi-fragmentados, e que o reparo dos “caquinhos estilhaçados” também precisa se aplicar ao nosso mundo interno e à nossa alma.

Ao olhar para si mesmo, é muito fácil perceber como somos seres “divididos”, como que compostos por diversas partes, muitas vezes conflitantes entre si. Um bom exemplo disso, mas longe de ser o único, é o conflito que ocorre em todas as pessoas entre o nosso centro intelectual e o nosso centro emocional. Mesmo dentro de um só centro, é comum existirem conflitos. Por exemplo, dentro de nosso mundo emocional, o conflito entre sentir amor e ódio, ou ternura e raiva.

Portanto, o ticun pessoal envolve trabalhar em nossos atributos emocionais, fatores mentais etc. Assim como no ticun olám, o objetivo é melhorar a vida e amenizar ou eliminar o sofrimento, mas agora, internamente, de mim para mim mesmo. Cada vez que atuamos em nós mesmos no sentido de nos tornarmos mais “leves”, “felizes” e “íntegros” (não-fragmentados), estamos promovendo o ticun pessoal.

É por isso que, segundo Luria – e como discutido no artigo mais básico sobre ticun –, até mesmo exercícios de meditação e contemplação se constituem em poderosas ferramentas de ticun (embora não as únicas), pois por meio dessas atividades é possível se autoconhecer melhor e promover modificações internas positivas.

É importante dizer que do ponto de vista estritamente cabalístico, não há ticun melhor ou mais importante do que outro. Tanto o estadista que assina um acordo de paz como a pessoa que está trabalhando em seu ciúme, ou egoísmo, estão promovendo um ticun igualmente importante. Dentro da escala de ticun olám, a pessoa que luta por uma melhoria na vida de sua família está realizando algo tão importante como o líder comunitário cuidando de mais de 1000 pessoas. No ticun pessoal, vale o mesmo: a pessoa trabalhando sobre suas visões preconceituosas está fazendo algo tão importante quanto aquele que está preocupado em aprender a viver relações amorosas não-abusivas.

Desse modo, pode-se ver que o ticun pode ser dividido em dois processos que, na verdade, se complementam: o reparo cósmico e o individual. Os dois processos existem pois a fragmentação – a quebras dos vasos, também ocorreu nas duas instâncias: no Universo e no interior de nossa alma.

O que talvez mais seja interessante é perceber que a responsabilidade pelo reparo de todas essas quebras é humana, e não divina. Na prática, a Cabalá ensina que a divindade tem um papel extremamente passivo nesse processo, e que ela espera que nós sejamos os que tomam atitudes e partem para ação.

É por essas e por outras que a Cabalá ensina que o ser humano – por meio de seus atos – consegue alterar o Universo e suas forças espirituais, ou seja, mudar o mundo física e espiritualmente. Outro ensinamento cabalístico diz que D’us queria que nós fôssemos “coparticipantes” da Criação, no sentido de que Ele criou o Universo mas não o deixou de modo acabado e perfeito. Esse estado final de retificação cabe a nós, seres humanos – novamente, tanto no mundo físico como no mundo espiritual. Por meio de nossa vida e atos, não estamos apenas fazendo o mundo físico se tornar um lugar melhor, estamos retificando a própria estrutura espiritual do Universo, que se encontra fragmentada e desconectada.

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