(Iniciante)

Cabalá (com acento no último “a”) é um termo hebraico usado para se referir a uma escola de pensamento e uma filosofia de vida com pelo menos 2.000 anos de história.
Se falarmos em termos literais, o termo Cabalá significa “recebimento” ou “recepção”, pois na origem os ensinamentos da Cabalá eram passados apenas oralmente, de mestre para aluno, e, assim, eram “recebidos” apenas por alguns poucos. Nesse sentido, você vai ver muita gente definindo a Cabalá como uma “tradição oral”.

Os ensinamentos da Cabalá são ligados a tentar entender como funciona e está estruturado o Universo em que vivemos e qual é o papel do ser humano na vida.

Por esse motivo, muitas vezes a Cabalá foi associada com a religião, com o esoterismo ou o misticismo, embora nenhum desses termos seja tecnicamente correto para descrever a Cabalá.

Como a Cabalá entende o Universo e a vida?
Tentando resumir a questão de modo simples: a Cabalá ensina que o Universo em sua totalidade, e em todos os seus detalhes – incluindo a nós – foi criado por um Criador.

Como parte inerente da estrutura desse Universo, esse Criador existe em um “estado” bastante distante e remoto de nós seres humanos.

No entanto, a Cabalá também ensina que essa distância entre criatura e Criador pode – e deve – ser superada.

Assim, por meio de nossos atos e condução da vida, conseguimos viver uma existência mais elevada. É por isso que anteriormente falei que a Cabalá pode ser entendida como uma “filosofia de vida”.

Mas se a Cabalá fala dessas coisas, ela não é uma religião?
Não! Porque uma religião sempre terá um conjunto de obrigações que o fiel precisa praticar e seguir em sua vida, além de crenças que ele deve ter sem duvidar ou questionar (os chamados “dogmas”). A Cabalá não tem nem uma nem outra coisa.

A Cabalá não diz que somos obrigados a nada, e nem espera que acreditemos de maneira cega em nada – tudo o que a Cabalá quer é, através do conhecimento, entender melhor a essência do Criador e a relação Dele com esse mundo e conosco, seres humanos.

De onde a Cabalá tirou os seus ensinamentos?
A surpreendente resposta é: dos textos sagrados da tradição judaica.
“Poxa, Yair, mas então tá vendo? Cabalá é religião. É judaísmo!”
E a resposta, de novo, é: NÃO!
Por quê?
Porque os cabalistas desenvolveram o seu próprio método de leitura e transmissão desses textos, e essa leitura é radicalmente diferente da leitura judaica.
É como se a Cabalá e o Judaísmo fossem duas pessoas assistindo a um mesmo filme. O filme é igual, mas cada uma entenderá o filme de um modo, e o que uma das pessoas considerar importante no filme não necessariamente será considerado relevante para a outra pessoa.
Então, tanto a Cabalá como o Judaísmo consideram os cinco livros do Pentateuco (chamados, em hebraico, Torá) como importantes, mas a leitura que se faz desses livros é diferente em cada um dos casos.

Vamos ver um exemplo dessas diferentes leituras?
Na Torá está escrito o seguinte: “não cozinharás o cabrito com o leite de sua mãe” (Êxodo 23:19; 34:26 e Deuteronômio 14:21).

Os teóricos e filósofos do judaísmo, dirão algo mais ou menos desse tipo:
“A Torá foi escrita por Deus e nela Deus deu vários mandamentos para que o homem cumpra. Em um desses mandamentos, Deus ordenou que não preparássemos nossa comida misturando carne com leite, pois no passado havia um costume pagão de comer esses dois tipos de alimento misturados. Para que não tenhamos práticas parecidas com a dos idólatras, o mandamento foi estabelecido. Hoje em dia o objetivo pelo qual o mandamento foi dado pode não mais existir, mas como se trata de um mandamento divino, devemos continuar a cumpri-lo; e cada vez que cumprimos o mandamento estamos sendo fiéis a Deus e praticando o ensinamento moral e ético que existe por trás das circunstâncias originais”.
Não é de se espantar que esse tipo de argumentação tem se mostrado, historicamente, como um excelente modo de fazer as pessoas cada vez menos interessadas na prática da religião e no seguimento das leis bíblicas, pois a maioria das pessoas não vê o sentido de cumprir mandamentos que se tornaram relíquias históricas simplesmente porque “está escrito”.

Como os cabalistas leem o mesmo texto?
“A Torá foi escrita pelo Criador do Universo e nela estão todos os ensinamentos a respeito do Universo e do ser humano. Esses ensinamentos, no entanto, estão codificados nos mandamentos divinos. Assim, para entendermos corretamente a Torá e os mandamentos é preciso entender a real essência do que está sendo ordenado. Nenhum dos mandamentos da Torá se refere ao mundo físico, mas trata de “energias sutis” que existem no Universo. Assim, quando um dos mandamentos dados pede que não se coma carne com leite, se está ensinando que não devemos misturar energias opostas como a da vida (representada pelo leite, que nutre e amamenta) e a da morte (representada pela carne, que contém sangue e que veio de um animal que foi morto). Por esse motivo, a Torá é eterna, pois os seus ensinamentos valem para qualquer época e para qualquer ser humano; e cada vez que entendemos o significado profundo dos mandamentos, e o praticamos em nossa vida, estamos transformando o mundo e fazendo com que o Universo seja um lugar mais harmônico e equilibrado”.

Deu para perceber como a abordagem é radicalmente distinta?

A Cabalá ensina que os textos bíblicos não devem ser lidos literalmente (aliás, quantas guerras e conflitos não foram causados por isso ao longo da história humana?), mas que devem ser compreendidos de maneira mais profunda.

Para a Cabalá, toda a Torá têm por único objetivo nos ensinar como funciona o nosso mundo e como podemos viver em maior harmonia e equilíbrio, o que nos torna pessoas “mais elevadas”.

Seguir os mandamentos, para a Cabalá, significa decodificar cada ensinamento da Torá e usá-lo para promover uma mudança do pensamento e das emoções humanas. Cada mandamento bíblico tem por objetivo promover uma transformação interna que, depois, se manifesta externamente na realidade, o que, em última instância, transforma positivamente o mundo.

É por isso que nós cabalistas dizemos que cada ser humano tem que se tornar uma força ativa na construção do Universo, ajudando a fazer deste mundo um local melhor, em todos os sentidos.

Assim, a Cabalá defende que uma das coisas mais importantes que temos que aprender é como funciona o Universo, quem é o seu Criador, e qual é o nosso papel nesse mundo.

Ao estudar sobre esses temas, o resultado inevitável é que nos tornamos seres humanos mais confiantes, seguros, felizes e libertos – pois ganhamos um senso de propósito, começamos a entender como funciona a vida e como melhor aproveitá-la.

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