Iniciante(Iniciante)

 

Pensar é um dos maiores dons que nós, seres humanos, possuímos. Graças a essa faculdade, conseguimos falar, iniciar ou manter um diálogo, e promover o debate, o que, segundo a Cabalá, torna-nos seres únicos na Criação.

Ideias, por sua natureza, devem ser livres – não cerceadas, não reprimíveis, não censuradas ou puníveis.

No entanto, essa liberdade de ideias abriga uma armadilha. Uma armadilha que pode ser bastante perigosa, diga-se de passagem.

A liberdade das ideias verifica-se e mantém-se única e exclusivamente no plano intelectual. No entanto, há ideias que, naturalmente, querem “sair” do plano das ideias, querem triunfar e querem ser ou expressadas ou colocadas em prática (ou ambas as coisas). Nesse momento, elas não são mais apenas ideias, mas também falas e atos, e falas e atos não são todos livres como o são as ideias.

O motivo para isso é simples: falas e atos podem ser uma grave violação do mundo como o conhecemos e o concebemos.

Pensar, em abstrato, mantendo o pensamento e as ideias dentro de nosso cérebro não causará problema de qualquer tipo a ninguém. Porém, ao colocar as ideais em prática, isto é, ao fazer ou falar coisas que movem as pessoas e podem gerar perdas, saímos da categoria puramente mental para ir para o campo do pecado (em termos religiosos) ou para o campo do crime (no campo do direito).

Essa é a grande diferença entre o livre pensar, o livre falar e o livre agir.

A busca da felicidade deve ser o grande ideal de cada indivíduo, mas esta felicidade não pode triunfar em detrimento dos anseios dos demais, sobrepujando-os, quando também são lícitos.

Pensemos, se a principal ideia de um determinado indivíduo é ver a morte de determinada pessoa, há dois grandes problemas.

Peguemos um exemplo para ilustrar o caso.

Suponha que em meu ódio por alguém eu deseje a morte desse alguém.

Esse desejo de morte do outro, enquanto apenas desejo, já é algo nefasto e perturbador. Certamente trata-se de um desejo “doentio”, movido por um profundo desequilíbrio nas relações. Desejar o fim do ponto mais alto da criação, do bem mais sagrado existente, é sinal de algo profundamente descarrilado. No entanto, ainda é apenas um desejo, um pensamento, uma ideia.

O problema aumenta de dimensão se esta ideia, para triunfar, é expressada ou colocada em prática.

Se esse desejo é verbalizado, ele já tem forma, e já se pode considerar que existe uma violência e uma ameaça à vida do outro. Desnecessário dizer que ao tomar atitudes que realmente contribuam para que a morte ocorra, coloca-se em andamento um plano horrível de destruição.

Interessante reparar que, nesse sentido, o mandamento bíblico a respeito disso é “não matarás” e não “não pensarás em matar”. A rigor, assim é com todos os mandamentos, que regem sobre atos, e não sobre pensamentos. Isso ocorre pois não é possível e nem factível punir/legislar sobre algo que está apenas na cabeça de um indivíduo.

A escala “pensamento – fala – ação” é, de certo modo, hierárquica quanto à sua força, poder, concretude e materialização.

Se são negativos, sua força destrutiva aumenta à medida que se materializam. Como pensamentos apenas no cérebro, pouco ou nenhum mal causam. Quando expressos em palavras, a depender da força e da maldade das palavras, começam a se tornar uma força destrutiva de poder considerável, capaz de arrasar o mundo ao seu redor.

Por fim, quando essas ideias verbalizadas passam a se constituir em feitos e atos, chegam ao auge de sua materialização. Sólidos e concretos, podem destruir com seu máximo potencial e causar os mais diversos problemas. Problemas esses que seriam muito menores caso fossem barrados, controlados ou ponderados ainda na fase de palavras.