Iniciante (Iniciante)

Em Gênesis, o Criador constata que “não é bom estar só”. O pensamento é ainda mais profundo quando constatamos que em nenhum outro lugar do texto da Criação Deus compartilha suas ponderações ou opiniões a respeito da vida.

Pode-se imaginar que o próprio Criador sente esse desconforto e, por isso decidir criar o mundo, como afirma Isaac Luria. Ele é tudo que existia, mas como “não é bom estar só”, Ele decide criar o ser humano. Ao mesmo tempo, “não é bom estar só”, se já é algo que o próprio Criador sente, é parte da realidade da criação, e é um sentimento embutido no próprio ser humano. Cumpre-se o “fomos criados à imagem e semelhança de Deus”.

Mas e como explicar que, na época moderna, muitos valorizem e idolatrem justamente o individualismo? Como entender as pessoas que bradam em alto e bom tom, e que publicam nas redes sociais como é maravilhoso e ótimo estar só? Essas pessoas não leram Gênesis? Essas pessoas não foram padrões da imagem e semelhança?

Antes, o que acontece, é que para essas pessoas parece “piegas” sofrer o “não ser bom estar só”. São pessoas que querem espaço e tempo pessoal, querem privacidade, autossuficiência e a capacidade de viver a vida “sem ter que dar satisfação a ninguém”.

Assim, quando essas pessoas por ventura (ou por algum mistério do destino) se relacionam com alguém, só o fazem por algum interesse. O que o outro tem a me oferecer? O que o outro pode fazer por mim? O que eu posso tirar do outro?

Desnecessário dizer, há um relacionamento, mas não há um vínculo … Logo haverá uma separação … e novamente haverá um eu sozinho, e a pessoa bradando em alto e bom tom – “está vendo? É muito melhor sozinho … não troco minha liberdade por nada. As pessoas não sabem se relacionar ”(repare que sempre são os outros, nunca elas iguais).

Esse brado vem para esconder a profunda dor que é o sentir-se sozinho; é puro mecanismo de defesa. Estar só é uma das dores piores que o ser humano pode sentir-se justamente por ser uma dor que não se pode partilhar, ao contrário de qualquer outra dor humana.

Essa é uma importância de estar apaixonado / apaixonado. Não há ser humano que consiga viver sem esse sentimento mágico de dependência e de laço com um outro – ainda que não concretizado. E essa dependência do outro não é pelo que ele tem a nos oferecer, mas simplesmente pelo fato de ele ser o nosso outro, de ele existir, de estar ali, e por ser ele quem nos salva do desgosto de estar sós.

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