(Intermediário)

Um dos assuntos que desperta muita atenção das pessoas que estão começando a conhecer a Cabalá é o Golem.

O Golem é um ser criado com matéria inerte (em geral lama ou barro; mas também pode ser pedra ou outros) e, depois, trazido à vida por meio de técnicas de Cabalá Prática.

Para fazer um paralelo moderno, muitos críticos literários dizem que foi essa ideia que inspirou a autora inglesa Mary Shelley a escrever sua obra prima “Frankenstein”.

Mas de onde veio a ideia de tentar fazer isso?

Do Sêfer Ietsirá. Já falamos um pouquinho desse livro clássico da Cabalá aqui, então dá uma conferida; mas a lógica por trás do Golem é a seguinte:

Adão, o primeiro ser humano, foi formado por Deus a partir do barro e, depois de formado, lhe foi insuflado o espírito de vida (ou alma).

Como o Sêfer Ietsirá é um livro que explica toda a estrutura do universo, ao estuda-lo uma pessoa consegue aprender a manipular esse universo como ela deseja, e isso inclui a vida.

Pense num químico que estuda por anos as propriedades dos elementos, átomos e moléculas da natureza. Todo esse conhecimento adquirido pode ser usado posteriormente para manipular a matéria.

O mesmo ocorre com o conhecimento fornecido pelo Sêfer Ietsirá. Daí que em muitas escolas de Cabalá Prática da antiguidade, uma espécie de prova final do aluno que estudava o Sêfer Ietsirá era criar um Golem. Isso mostraria se o aluno realmente tinha adquirido domínio suficiente do conteúdo do livro e se realmente podia ser considerado um mestre da Cabalá Prática.

Ao criar um Golem com sucesso, o cabalista estava mostrando que tinha adquirido o poder de criar a vida. Na verdade, o poder de criar a vida de maneira natural é faculdade de quase todo ser humano (através da reprodução). Mas o cabalista aqui ia um passo além, mostrando que podia criar a vida através da matéria inerte, tal qual Deus fez quando da criação de Adão. Nesse sentido, a criação de um Golem também demonstrava que o cabalista estava um passo mais próximo do divino. Para ler mais sobre o porquê isso era importante, confira o post “Tornar-se Divino”.

Ao longo da história humana, estima-se que diversos Golems foram criados por cabalistas.

O Talmud, no Tratado de San’hedrin 65b, por exemplo, conta como o Rava criou um Golem usando o Sêfer Ietsirá e o enviou para seu amigo, o Rav Zeira. Quando o Rav Zeira falou com aquele “homem” e ele não respondeu, ele entendeu que era um Golem feito pelo amigo e disse: “Vejo que você foi criado pelo meu amigo. Muito bem, agora volte ao pó”. O Golem imediatamente se desfez.

Sem sombra de dúvidas, nenhum Golem se tornou tão famoso como o Golem de Praga.

Criado em 1580, na cidade de Praga, pelo Maharal de Praga (o Rabi Iehudá Loew ben Betzalel), o Golem neste caso foi feito com um objetivo muito específico: proteger a comunidade judaica, que, na época, sofria terríveis perseguições e violências por conta do antissemitismo instaurado no país.

Depois de ter agido por anos como “guarda-costas” da comunidade – inspirando medo nos inimigos dos judeus, que começaram a deixar a comunidade em paz – o Golem perdeu a sua razão de ser e foi “desmontado” (ou desmembrado) pelo Maharal de Praga, e a lama utilizada em sua fabricação foi guardada no sótão da antiga sinagoga de Praga, onde, diz a lenda, se encontra até hoje, em um sítio turístico aberto para visitação ao público (o sótão em si está fechado, mas a sinagoga pode ser visitada pelos turistas).

As explicações, comentários e estudos sobre os Golems foi ganhando cada vez mais detalhes ao longo dos tempos – alguns deles extremamente fantasiosos e meros frutos de “invencionice” humana, outros mais realistas e calcados na tradição (como, por exemplo, a incapacidade de um Golem falar, e que aparece já no relato do Talmud mencionado).

O escritor Isaac Bashevis Singer, vencedor do Nobel de Literatura, escreveu a sua versão da lenda do Golem em 1969, e hoje essa é uma das narrativas mais conhecidas sobre o tema; que, obviamente, também ajudou a difundir o assunto.

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