Avançado(Avançado)

Em um artigo anterior, DESEJO E EGO, falamos sobre os desejos e como a Cabalá não defende a eliminação dos desejos, mas justamente o oposto – a sua satisfação. Neste artigo veremos mais tecnicamente porque é isso que a Cabalá sugere que se faça com nossos desejos.

O ensinamento deriva de um conceito central e fundamental da Cabalá, mas que, infelizmente, foi distorcido por pelo menos dois grandes centros de Cabalá modernos. Trata-se do conceito de “restrição” ou, em hebraico, tsimtsum.

Quando o Criador desejou (repare no verbo utilizado, pois isso será importante) criar o mundo, Ele percebeu que, para isso, seria preciso criar um espaço vazio no qual este mundo fosse criado. Por quê? Pois no início a Luz do Criador era a única existência, e ela ocupava todo o espaço que existia. Não existia nada além dessa Luz pura e absoluta. Sendo assim, para criar algo que não fosse a Luz, era preciso vagar um espaço onde a criação pudesse existir. A criação desse espaço vazio se deu por meio da “restrição” (tsimtsum) dessa Luz do Criador. É como se essa Luz tivesse se apertado, ou se comprimido, escolhendo deliberadamente ocupar um espaço menor do que ocupava para que no espaço vazio resultante pudesse surgir o mundo. A Luz sofreu uma “contração”. Antes ela ocupava a tudo e estava em tudo, agora ela ficou “limitada” e “confinada”.

Pois bem, e o que isso tem a ver com os nossos desejos?

Segundo a distorção que mencionei – apresentada por algumas escolas modernas de Cabalá –, esse conceito cabalístico ensinaria que nós devemos “restringir” os nossos desejos e “contrair” ou “limitar” as coisas que desejamos no mundo. Nas palavras de um professor dessas escolas cuja aula eu ouvi: “ao montar um prato de comida que você deseja comer, a atitude de um verdadeiro cabalista é comer apenas parte do prato… 80%, 90% do prato, e nunca o prato todo, pois assim você restringiu o seu desejo e ganhou Luz”.

Não é nada disso, e o conceito não é esse. Como mencionado, para a Cabalá nós temos que tentar satisfazer nossos desejos, e não eliminá-los, restringi-los, podá-los ou qualquer coisa do tipo. A prova, como já disse, vem do conceito de tsimtsum.

Mas Yair, o que o professor do centro disse parece estar correto. De fato o Criador se restringiu para poder criar um espaço para o mundo existir.

Aí está o segredo.

Lembra que lá em cima eu falei para você prestar atenção no verbo usado (“desejar”) pois ele seria importante? Agora vai ficar claro o motivo.

Por que é que o Criador se restringiu?

Justamente porque ele DESEJAVA algo, porque ele DESEJAVA criar o mundo e, para conseguir realizar o Seu desejo, Ele viu que a única alternativa era a restrição.

Preste muita atenção nisso, pois o conceito é vital! Não houve restrição do desejo, houve restrição do próprio Criador! O Criador aceitou Se restringir, perder parte da sua totalidade, por assim dizer, para poder realizar o seu desejo.

Percebe qual é o real ensinamento por trás do conceito?

Realizar nossos desejos é extremamente importante, tão importante que, para isso, precisamos estar dispostos inclusive a deixar para trás uma parte de quem nós somos e de nossa essência, se soubermos que com isso realizaremos o desejo que levamos na alma.

Vamos ver dois ou três exemplos:

– eu desejo muito uma certa vaga de trabalho ou cargo profissional. Para conseguir essa vaga, portanto, eu preciso estudar uma variedade de assuntos e me preparar com afinco para estar apto a conquistar o posto desejado. Se esse for um real desejo meu, pode ser preciso que eu deixe para trás padrões de comportamento e hábitos negativos com os quais eu jamais conseguirei manifestar o desejo que quero.

– eu desejo muito ter um relacionamento amoroso com a pessoa X. No entanto existe um traço de caráter meu, ou uma característica de minha vida que por algum motivo desagrada profundamente a X. Somado a isso, X já me disse que não conseguiria ficar comigo enquanto esse traço existir. Se ficar com X for um real desejo meu, eu tenho que estar disposto a abrir mão dessa característica para conseguir o que quero (por sinal, isso não seria uma grande prova de amor?)

Desses dois exemplos confinados a duas áreas da vida você certamente conseguirá entender o princípio que se aplica a qualquer área, sempre que houver um desejo humano atuando.

A ideia básica é:

1) Meu eu atual ocupa um espaço total (representado por estar um estado satisfatório de existência)

2) Surge um desejo no eu

3) Esse desejo surgido não pode se concretizar, pois não há espaço na atual configuração das coisas onde essa concretização possa ocorrer

4) O eu precisa se contrair (se retirar, se remover) para criar um espaço onde o desejo venha a se concretizar

Assim, a premissa do tsimtsum é que devemos estar dispostos a nos alterarmos, inclusive nos retirando, nos limitando e nos cerceando, se isso permitir que alcancemos os nossos desejos e nossos objetivos. Talvez mais importante do que isso, ao agir assim, estamos agindo do mesmíssimo modo como D’us agiu ao Criar o Universo, e acabamos por aplicar um importante princípio cabalístico, como explicado no artigo TORNAR-SE DIVINO.

 

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