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Num artigo anterior, chamado “Desejo e ego”, falei sobre como a Cabalá defende que devemos tentar satisfazer ao máximo os nossos desejos. Apesar das importantes ressalvas feitas ali, você pode ter ficado com a impressão, então, de que todos os nossos desejos são sempre bons e que, portanto, desejar é sempre algo positivo.

Esse artigo vem mostrar que não é bem assim que funciona.

A natureza humana é um desejo por sentir prazer, mas, como é fácil perceber, esse prazer pode ser obtido das mais diversas formas.

De maneira resumida e simplificada, podemos dizer que existem duas formas de conseguir o prazer que desejamos:

1) sem que isso afete positiva ou negativamente as demais pessoas

2) afetando positiva ou negativamente as demais pessoas

Para a Cabalá, o que define se um desejo é positivo ou negativo é justamente a forma que optamos por conseguir o que queremos. Poderíamos montar didaticamente uma escala hierárquica que mostraria os desejos elencados dos mais positivos para os mais negativos do seguinte modo:

1) eu desejo um prazer e para consegui-lo alguém é afetado positivamente

2) eu desejo um prazer e para consegui-lo ninguém é afetado positiva ou negativamente

3) eu desejo um prazer e para consegui-lo alguém é afetado negativamente

Ir atrás de um desejo sabendo que alguém será afetado é o que se chama de intenção (cavaná) na Cabalá. Assim, um desejo do tipo 1 é considerado um desejo com intenção positiva; enquanto um desejo do tipo 3 é um desejo com intenção negativa. Para a Cabalá, é a intenção que conta na hora de definir se um desejo é positivo ou negativo, e não o desejo em si.

Assim, duas pessoas podem desejar subir na vida e ganhar muito dinheiro. Para a Cabalá, esse desejo em si não tem nada de errado ou de negativo (e nem de positivo), ainda que seja um desejo por algo material como o dinheiro (e que pode ser condenado em algumas vertentes religiosas ou espirituais).

No entanto, suponha que uma dessas pessoas, para atingir seu desejo de subir na vida, esteja disposta a fazer o que for preciso para isso – inclusive mentir, fraudar, enganar, extorquir, roubar e agir de maneira ilegal. O seu desejo acaba de se tornar um desejo negativo.

Repare que o mais interessante não é que o seu desejo se tornou negativo pois para consegui-lo ela cometeu crimes (como extorsão e roubo). Seu desejo se tornou negativo pois no processo ela afetou negativamente a outras pessoas. Seu desejo é negativo pois sua intenção por trás de subir na vida é negativa (ainda que ela não cometa nenhum crime segundo a lei).

A outra pessoa, por outro lado, deseja a mesmíssima coisa mas para conseguir o que quer essa pessoa se recusa a causar prejuízo e dano aos outros. Essa pessoa não aceita ganhar dinheiro se isso implicar que outros tenham que perder; ela não aceita conseguir um cargo melhor se para isso alguém tiver que ser prejudicado. Essa pessoa tem um desejo positivo, com intenção positiva. Novamente, repare, que não se trata de uma questão moral ou ética para avaliar seu desejo. O desejo dela não é positivo por isso, mas tão somente por essa pessoa ter uma noção do outro, e não apenas de si mesma.

E com isso chegamos ao próximo ponto…

De modo geral, pode-se dizer que os desejos são negativos quando se preocupam em satisfazer apenas as necessidades pessoais, sem levar em consideração os demais.

No sentido inverso, teremos que os desejos são positivos quando, além de satisfazer vontades pessoais, tentam levar em consideração a vida de terceiros.

A “parte” em nós que regula isso se chama Satan, pela Cabalá, e será alvo de um outro artigo aqui no blog.

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