(Iniciante)

Em outro artigo – Como ser um bom aluno – falei da importância da postura correta do aluno para um bom aprendizado. Agora quero abordar o outro lado da equação, a parte da escola e do professor.

Aqui me parece importante fazer uma primeira distinção geral, que diz respeito a qual tipo de professor você está pensando em “contratar”: um para assuntos técnicos e práticos ou um para assuntos espirituais?

Se você está buscando um professor para te ensinar algo “mundano”, por assim dizer, como, por exemplo, mecânica, música ou carpintaria, sua principal preocupação deve ser com a habilidade e capacidade técnica do professor, e não com o seu caráter.

Obviamente, caso o professor seja um tipo excessivamente complicado, você deve evitá-lo. Mas, caso contrário, não te importa se o seu professor é adúltero, se constituiu família, se reza todo dia ou se possui algum vício qualquer. Nada disso é da sua conta, e, a não ser que seja alguém muito ruim – como dito –, nada disso deve interferir na sua escolha e, idealmente, não deve interferir na capacidade do professor de ensinar.

Se, por outro lado, você está buscando um professor sobre assuntos espirituais, filosóficos, pessoais ou existenciais, é justamente o contrário. A sua primeira preocupação deve ser com o caráter, o estilo de vida e as obras do professor; em segundo plano vêm as habilidades, a didática e a capacidade de lecionar.

Isso é extremamente importante pois hoje uma das coisas que mais se vê é professor com o discurso bonito, com a fala cativante, com a mensagem contagiante mas que, quando se trata da vida pessoal, é uma lástima.

Quando falo “lástima”, me refiro a professores que muitas vezes são pessoas cuja moralidade se encontra abaixo da média normal de um ser humano, e são “professores” (entre aspas) que praticam atos incompatíveis com os valores que professam: aplicam golpes, extorquem, fraudam, ludibriam, abusam da autoridade etc.

Em meus anos de carreira lecionando cansei de ver professores com lábia que não passavam de fraudes e charlatões, ou de líderes de cultos e seitas que utilizam técnicas de lavagem cerebral para baixo (inclusive cometendo crimes dos mais sórdidos, como vira e mexe aparece na mídia, do tipo de estupro e abusos sexuais).

Ao buscar um mestre, faça uma pequena pesquisa sobre ele. O que dizem sobre ele? Qual é a reputação dele? Veja, não estou falando de gostarem ou não dele. Certamente haverá alunos que adoram os ensinamentos de um mestre enquanto outros não concordam. Estou me referindo a caráter. Há histórias de escândalos e abusos envolvendo o mestre? Há processos policiais, judicias ou criminais contra o mestre?

E quais são as práticas que esse mestre propõe? Ele é do tipo que oferece “massagens nudistas por um preço especial a membros seletos da comunidade”? Ele é do tipo que propõe práticas que vão claramente contra o bom senso e, às vezes, até contra o código de leis do país?

Uma boa dica é: se pergunte se você colocaria aquele professor que vai te falar sobre espiritualidade dentro da sua casa, perto dos seus filhos. Se a essa pergunta você hesitar ou sua tendência for dizer “não”, pense duas vezes em ter essa pessoa como seu mestre, e, mais ainda, em frequentar o espaço/escola ou realizar os rituais que essa pessoa oferece ao público.

Eu disse que no caso de professores de espiritualidade, a didática e capacidade de oratória deveria ficar em segundo plano, mas isso também não quer dizer que ela não deva ser parte da sua análise na hora de escolher o mestre. O primeiro ponto a observar é o caráter, mas também não dá para ter aulas com alguém que mal sabe escrever ou que não consegue concatenar e articular minimamente as ideias.

Dependendo da área da espiritualidade a ser ensinada, é particularmente importante que o professor possua no mínimo boas habilidades de ensino, pois alguns tópicos são naturalmente mais densos ou abstratos do que outros. Um exemplo disso é a própria Cabalá. Outros exemplos são: taoísmo, hinduísmo, filosofia em geral (em particular a platônica e existencialista).

Com esse ponto abre-se uma terceira recomendação – ou uma recomendação paralela, se assim desejar: certificar-se de que o professor realmente leciona, passa conteúdo e você percebe seu avanço. Cansei de ver professores que até se expressam bem e têm bom caráter, mas que, na verdade, oferecem pouquíssimo ou nenhum material ou conteúdo relevante aos alunos. São professores que ministram curso atrás de curso e nunca dizem nada. São professores que falam por horas e horas apenas sobre uma mesma ideia rasa e vazia (que podia ter sido apresentada em cinco minutos de conversa). São aquelas escolas nas quais você está por anos e anos e sente que nunca aprendeu algo profundo ou significativo.

Muitas vezes, isso é feito por falta de capacidade e de didática do professor, de fato. No entanto, muitas vezes isso é feito “de propósito”, com o intuito de “esconder o ouro”, e “enrolar” o aluno por anos, preocupado apenas em manter o estudante pagando a mensalidade em dia, sem dar nada de substancial em troca.

Aplicando essas dicas um pouco mais ao ramo específico da Cabalá, não se deixe enganar pelo que se pode chamar de “Cabala New Age”. Muitas pessoas hoje em dia – mais por questões de marketing e de dinheiro do que outra coisa – se anunciam como verdadeiras detentoras do conhecimento cabalístico e se pintam como capazes de interpretar os textos cabalísticos mais profundos quando, em muitos casos, mal sabem ler hebraico ou entender os conceitos mais básicos e primários da Cabalá.

Desconfie de professores ou escolas que fazem a Cabalá parecer ser um assunto super pop, ou quando os ensinamentos são rasos (e repetitivos) demais – se tem algo que a Cabalá não é é pop ou superficial.

Não estou defendendo também que o ensinamento da Cabalá seja feito propositalmente difícil e apenas para uns poucos gênios eleitos, mas se ao ouvir aulas em uma escola você perceber que o tema “é sempre o mesmo” e que o conteúdo parece se repetir sempre, apesar de você estar “avançando de nível ou de módulo”, desconfie. Em geral isso é um sinal de que faltam conhecimentos mais profundos para aquele professor ou naquela escola, e por isso tudo o que eles conseguem te passar é aquele ensinamento raso e vazio.

Do mesmo modo, se ao ouvir uma aula de Cabalá tudo te parecer muito da categoria “autoajuda”, desconfie: isso não é Cabalá. Embora a Cabalá certamente possa mudar sua vida (e mude), também é certo que esse não é seu foco principal (mudar a sua vida é um efeito secundário e colateral, que ocorre naturalmente à medida que você estuda).

Seguindo essas pequenas dicas você pode se evitar muito problema e dor de cabeça, evitando cair na mão de charlatões e pessoas inescrupulosas e, no mínimo, evitando gastar dinheiro e tempo em cursos básicos e vazios que pouco tem a te acrescentar.

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