Iniciante (Iniciante)

No texto “O que é Cabalá?” vimos que por muito tempo os ensinamentos da Cabalá eram passados de maneira oral numa cadeia de transmissão ligando mestre a discípulo.

Mas e onde começou essa cadeia?

A maioria dos cabalistas não hesitará em dizer que começou com o próprio Adão, no Jardim do Éden, que já teria recebido segredos profundos sobre o Universo e Deus (que, se você lembrar, eram dois objetivos de estudo da Cabalá).

Historicamente é óbvio que não podemos comprovar essa afirmação, mas ainda assim ela é interessante pois vemos que essa ideia nos leva a afirmar que a Cabalá é anterior à própria Torá (que foi dada apenas anos depois no Monte Sinai, a Moisés).

Ou seja, muito antes de existir a Torá, já havia seres humanos ao longo da história humana tentando entender e se relacionar melhor com o Criador. Sendo assim, podemos considerar esses os primeiros cabalistas da nossa história.

Quando a Torá foi recebida, a Cabalá entrou em uma nova fase de seu desenvolvimento, e os cabalistas agora tinham o texto escrito da Torá para continuar explorando o Universo e conhecer a D’us. Aqui estão cabalistas mencionados na Bíblia e no Tanach, num período que vai de cerca de 1500 aec a cerca de 400 aec:

Moisés, Josué, Betsalel, Elazar, Pinchas e os 70 Anciãos, Eli, Profeta Samuel, Rei David e Rei Salomão, Profetas Elias e Eliseu, Zacarias, Oseias, Amos, Isaías, Miqueias, Joel, Nachum, Chabacuc, Sofonias, Jeremias, Ezequiel.

Repare que muitos desses cabalistas escreveram seus próprios livros – conhecidos hoje como “Profetas” – que, por sua vez, foram estudados por cabalistas posteriores.

Por sinal, os primeiros cabalistas a estudarem esses textos primários são muitas vezes chamados de cabalistas da Mercavá (Carruagem), pois esse é o termo usado por profetas como Ezequiel ao se referir a sua ascensão aos Céus.

Dentre esses cabalistas os mais importantes são:

Ezra, Shimon Hatsadic, Ben Sira, Choni Hameaguel, Iochanan ben Zacai, Nechunia ben Hacana, Rabi Akiva, Rabi Ishmael, Rabi Shimon bar Iochai e Rabi Elazar (seu filho).

Desses, o Rabi Shimon bar Iochai instauraria uma nova fase no estudo da Cabalá. Por meio da tradição recebida de seus mestres, mas também de revelações e ensinamentos que ele acessou sozinho, por seu mérito, o Rabi Shimon bar Iochai escreveu uma obra que viria a se tornar uma espécie de “Bíblia” da Cabalá: o Zôhar, que já discutimos brevemente aqui – Livros Base da Cabalá.

O Rabi Shimon e seu círculo viveu no período do Segundo Templo de Jerusalém, destruído no ano 70. Portanto, desde o último profeta até o Rabi Shimon, temos um período englobando de cerca de 400 aec até cerca de 100 ec.

O próximo grande marco na história da Cabalá ocorre com um homem chamado Avraham Abulafia, considerado “pai” da chamada Cabalá Profética. Basicamente, o que Avraham Abulafia tentou fazer em seus livros e ensinamentos é retomar a capacidade profética que os antigos cabalistas (da época do Templo) possuíam.

Entre o período que leva do Rabi Shimon ao Rabi Avraham Abulafia (100 a 1200), alguns dos nomes de destaque são:

Rashi, seus filhos e netos, o Raavad, Rabi Isaac, o cego, Rabi Iehuda Hechassid, Rabi Elazar de Worms, Ramban (Nachmânides), Ibn Ezra, Rabi Ioná de Gerona, Rabi Menachem Recanati, Rabi Shlomo ben Aderet.

Seguindo pela linha histórica, um novo marco na Cabalá surge em cerca de 1500, quando os maiores cabalistas da época viram como sua obrigação irem morar na cidade de Safed (Tsfat) ao norte de Israel. Ali, esse grupo acabou fundando o que muitas vezes se chama “A Era Dourada da Cabalá”.

Do período de auge da escola da Cabalá Profética de Abulafia (1200) ao círculo dos cabalistas de Safed (1500), temos nomes como:

Moisés de Leon, Rabi Isaac de Aco, Rabi Iossef Gikatilla, Rabênu Bechaia ben Asher e Rabi Avraham Zacuto.

Já no círculo de Safed, os maiores nomes de destaque são: Rabi Iossef Caro, Rabi Shlomo Alcabets, Rabi Moshe Alsheich, Rabi Moshe Cordovero, Avraham Galante, Rabi Eliahu de Vidas, Rabi Itschac Luria, Rabi Chaim Vital e seu filho, Shlomo Vital, Rabi Isael Sarug.

Esse período vai até cerca de 1700.

Depois de Luria e seus discípulos (por meio dos quais temos acesso a seus ensinamentos), pode-se dizer que, de certo modo, a Cabalá começou a ter o seu declínio (como é comum depois de se atingir uma época de esplendor, ou “dourada”).

Esse declínio não significa que a Cabalá deixou de ser estudada, mas sim que os próximos estudiosos que surgiram começaram a simplificar excessivamente a Cabalá, e toda simplificação acaba por ser uma redução. Assim, em certo sentido, a Cabalá sofreu uma “banalização” ao ser reduzida a seus elementos mais básicos para poder ser apresentada aos leigos e às grandes massas. Se isso é um fenômeno positivo ou não é um assunto de opinião pessoal, mas é sabido que esse é um fenômeno pendular ou de balança (trade-off) muito comum: ou você tem algo profundo e complexo mas de pouco acesso, ou você divulga esse algo para a grande massa mas com isso inevitavelmente perderá muito de sua profundidade e complexidade.

Parte desse fenômeno inclui o fato de que com essa popularização a Cabalá começou a ser estudada, pela primeira vez na história, por pessoas que não eram ligadas ao judaísmo ou à tradição bíblica. Assim, um novo nível de distorção dos ensinamentos cabalísticos começou a ocorrer, com aparecimento de “escolas” de Cabalá ditas cristãs ou herméticas (e chegando até hoje nessas mesmas escolas ou em grupos que se consideram “ocultistas” ou “new-age”).

Se nos esforçarmos para permanecer dentro da linha cabalística mais fiel à tradição, após Luria, e na época moderna, podemos citar grandes nomes como o Maharal de Praga, Moshe Chaim Luzzatto (já no século XVIII), o Gaon de Vilna e o Rabi Shalom Sharabi (que estabeleceria o ramo mais “oriental” da Cabalá, ligado a países como Iêmen e Marrocos).

Resumo dos Períodos:
1. Período Pré-Torá (início do mundo a cerca de 1500 aec)
2. Período da Torá e dos Profetas (1500 aec a cerca de 400 aec) – maior expoente: Moisés
3. Período da Mercavá (400 aec a cerca de 100)
4. Período do Zôhar (100 a 1200) – maior expoente: Rabi Shimon Bar Iochai
5. Período da Cabalá Profética (1200 a 1500) – maior expoente: Avraham Abulafia
6. Período da Cabalá de Safed (1500 a 1700) – maiores expoentes: Moshe Cordovero e Isaac Luria
7. Período da Cabalá Luriânica e popularização/distorção da Cabalá (1700 até os dias atuais)

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