Avançado(Avançado)

 

Não foram poucas as pessoas e doutrinas ao longo da história que defenderam algo chamado “a busca pela Verdade” (com V maiúsculo).

Quando mencionam a Verdade que se deve buscar, os defensores da ideia se referem ao conceito de que existe uma Verdade que seria absoluta, perfeita e universal e que, uma vez encontrada, explicaria todo o universo e o próprio significado da vida.

No entanto, a Cabalá sempre desconfiou dessa Verdade e, antes, desde os seus primórdios, defendeu a ideia de que talvez não exista a Verdade, mas sim apenas verdades (com v minúsculo). As verdades são pessoais, parciais e relativas – dependem de cada um. Ao viver e se deparar com a realidade, cada ser humano vai encontrando a sua verdade, ou seja, aquela lógica interna que, para aquele ser humano, explica o mundo e o sentido da vida.

Pela Cabalá, portanto, não é exagero dizer que há tantas verdades quantos seres humanos existirem no mundo e isso pode ser visto em um ensinamento cabalístico extremamente importante. Para melhor apreciar esse ensinamento, vamos ver antes o ensinamento oposto a ele.

O cristianismo é uma das religiões que sempre pregou a busca da Verdade, e que defendeu a ideia com unhas e dentes, afirmando categoricamente que quem não encontra essa Verdade não pode realmente viver, ou não pode ter a chamada “salvação”.

Com base nessa ideia, e como não podia deixar de ser, o cristianismo defendeu que essa Verdade é encontrada por meio do estudo e prática das Sagradas Escrituras e que, fora delas, não há salvação. Ao afirmar isso, o cristianismo está basicamente dizendo: só existe um texto verdadeiro (o conjunto das Sagradas Escrituras) e, mais do que isso, apenas um modo correto e verdadeiro de ler esse texto (com a interpretação e o significado definidos pelo próprio cristianismo).

Em postura totalmente oposta a essa, a Cabalá – como já mencionado – sempre desconfiou da existência de uma só Verdade salvadora. Na prática, isso significa que, desde seus primórdios, a Cabalá:

  1. nunca considerou o texto sagrado (a Torá) como a única Verdade absoluta e universal
  2. jamais defendeu que havia apenas um modo de interpretar esse texto

Quanto ao primeiro ponto, a Cabalá sempre entendeu que a Torá “serve” para o Povo de Israel, mas que os outros povos terão os seus livros sagrados e as suas verdades; ou seja, não há pretensão alguma de que a Torá seja universal e para todos, como Verdade unânime da humanidade.

Quanto ao segundo ponto, de não entender que o texto bíblico só tem um modo de ser interpretado, a Cabalá sempre afirmou justamente o oposto; que, pelo contrário, existem nada mais e nada menos do que 600.000 modos de interpretar a Torá.

Para além do espanto em descobrir que não há um único jeito correto de ler o texto sagrado, a pergunta que se coloca é: por que 600.000? Por que não 10? Por que não 756.000?

E a surpreendente resposta é que esse é exatamente o número de pessoas que deixaram o Egito e receberam a Torá aos pés do Monte Sinai. Ou seja, existem 600.000 interpretações para Torá pois existem 600.000 pessoas que lerão a Torá. Na prática, isso é o mesmo que dizer que cada uma dessas pessoas lerá o texto à sua maneira, do seu jeito, interpretando-o do seu modo e, com isso, encontrando a sua verdade pessoal e individual no texto.

Não pretendo me estender sobre isso no texto – por não ser esse o foco – mas para valer como reflexão final, é interessante notar como essa “pequena” diferença na visão das coisas causou uma mudança enorme de atitude entre o cristianismo e o judaísmo.

Uma vez que entendia a Bíblia como a única Verdade absoluta e salvadora, o cristianismo ao longo dos tempos não mediu esforços para levar (às vezes, “forçar”) essa Verdade aos mais diversos povos e locais mais distantes da terra. Foi ainda tentando impor essa Verdade que muito sangue foi derramado e muitos preconceitos estabelecidos.

O judaísmo, por sua vez, como nunca entendeu que todo ser humano devia se subjugar à Torá, jamais se preocupou com atitudes missionárias ou catequizadoras e nunca considerou os demais povos melhores ou piores por não seguirem as leis da Torá (já que o entendimento é de que eles não têm obrigação alguma de o fazer).

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